A Pastoral da Juventude e as Comunidades Eclesiais de Base – com pobres, construímos o Reino!

Os delegados da Região Brasilândia, para o 13º Intereclesial das CEBS. PJ presente na caminhada!

Os delegados da Região Brasilândia, para o 13º Intereclesial das CEBS. PJ presente na caminhada!

“Sempre do lado dos mais pobres”. Como pensar em fazer Pastoral sem pensar nesta frase? Ela me foi dita em 2011 por um verdadeiro pai e pastor: Pedro Casaldáliga, o bispo dos pobres e da esperança!

É uma das poucas frases das quais me lembro daquela ocasião, quando estávamos participando da Romaria dos Mártires da Caminhada em Ribeirão Cascalheira. Foi um momento surpreendente, a acolhida, as partilhas… Não que eu esperasse algo normal ao estar do lado do Pedro. Ele sempre nos desinstala, nem que seja só com o olhar – profundo, de cuidado e atenção com tudo o que é dito para ele.

Essa recomendação tem me guiado no fazer Pastoral, mesmo que muitas vezes eu não consiga lidar com as realidades de pobreza, as diversas pobrezas que existem hoje no Brasil. Ao recomendar isso, Pedro nos identifica como pastores/as, e por isso nos pede para cuidar das ovelhas. Mas cuidarnão significa tutelar, e as ovelhas que queremos não são aquelas que baixam a cabeça para tudo que dizemos.

Para nós, o que precisa ficar claro é a relação pastor/a versus ovelha que Jesus estabeleceu entre seus/suas amigos/as. A relação é de cuidado, de afeto, de companheirismo. Ser seguidor e seguidora de Jesus é ser pastor/a, mas também garantir que quem recebe nosso serviço seja sujeito, seja protagonista de sua ação, de sua história. Porém, quase sempre somos nós que devemos nos deixar ensinar por tanta gente que com tão pouco consegue grandes proezas em meio a tantas desventuras da vida… Quem somos nós, jovens da Pastoral da Juventude, no acompanhamento a tantos/as outros/as jovens nesse imenso país? Sim, somos pastores e pastoras! Somos cuidadores/as, amigos/as e companheiros/as de luta e de caminhada. Não podemos esquecer-nos disso. São 40 anos cuidando de tantos e tantas jovens, dos seus grupos de base, de sua formação, de sua espiritualidade, de suas vidas…

Esse cuidar não é algo desprendido da realidade, nem interessado em apenas fortalecer a própria PJ. É um cuidado que prima, sobretudo, pela vida destes/as jovens. Tal espiritualidade não tem origem na própria PJ, pois ela não se encerra em si mesma.

A história nos conta que a Pastoral da Juventude é herdeira de um processo que se inicia, mais organicamente, lá pela década de 30 do século XX. Foi a Ação Católica que fomentou os caminhos para que nossa organização fosse o que é hoje. Seus processos, sua forma de agir e de refletir, tiveram fundamental importância na nossa vida. O método da Ação Católica é algo que está na essência da Pastoral da Juventude e no nosso fazer Pastoral.

Há algo que vem também desse período e que se fortalece em outro meio mais popular: a nossa ESPIRITUALIDADE! Também herdamos muito do “relacionar-se com Deus” da Ação Católica. Mas sem dúvida, é de um lugar muito específico que esta espiritualidade brota e reaviva nossos sonhos e esperanças na construção do Reino. Estou falando das Comunidades Eclesiais de Base. As CEBs vão se fazendo espaço de acolhida, de cuidado, de reflexão e de luta, no mesmo período em que nós vamos forjando-nos através da Ação Católica Especializada (ACE). As juventudes da ACE (JAC, JEC, JIC, JOC e JUC[1]) também fazem parte da mesma construção libertadora de Igreja Latino-Americana em que as CEBs estão inseridas.

Hoje nos deparamos com muitos discursos de que a PJ e as CEBs estão morrendo, que são propostas fracassadas de Igreja. Se somos fracassadas, também  a Igreja, no chão da América Latina é fracassada! Fracassados/as somos também aqueles e aquelas que professamos nossa fé em Jesus e nos dizemos seus seguidores/as.

Não fracassamos! Estamos vivas! Mais vivas do que nunca! Erramos e acertamos. O Espírito de Deus é quem nos guia! Ele nos provoca e nos ilumina a avançarmos no fortalecimento de nossa utopia, o Reino. Não quero negar que caminhamos com muitas dificuldades. Sim, isso é real. Mas as dificuldades nunca foram problemas para quem segue o Crucificado-Ressuscitado. Nós somos o povo da cruz, mas também da Ressureição! Somos o Povo da Esperança, Testemunhas fiéis do Reino!

Este ano estamos celebrando 40 anos das primeiras articulações da Pastoral da Juventude no Brasil. Fazemos memória do primeiro encontro realizado no Rio de Janeiro para conhecer as iniciativas que se configuravam como uma Pastoral da Juventude no país. A partir deste encontro, foram feitos vários esforços para que houvesse de fato uma articulação de PJ orgânica, dentro da Pastoral de Conjunto da Igreja, que estivesse sempre com os pés fincados no chão das comunidades. Não podemos fazer memória dessa construção sem fazer memória de nossas comunidades. As CEBs são o chão de nossa realidade e são elas que nos impulsionam na construção do Reino! Elas são nosso lugar vital! “As CEBs são o modo normal de ser Igreja[2]”!

Nós, Pastoral da Juventude, não podemos sobreviver fora da comunidade! Não sobreviveremos se o nosso espírito não for o espírito das CEBs. Assim como as CEBs não podem sobreviver sem nossa vontade, ousadia e força! Somos a grande maioria dos/as jovens que se engajam nas comunidades. Somos, sem dúvida alguma, a juventude das CEBs. Claro que há muitas outras juventudes, mas nós somos essencialmente jovens das Comunidades Eclesiais de Base. As CEBs, como a PJ, são sinais fiéis de Deus na história de seu povo, por isso devem ser nossa esperança e o nosso jeito de construir os caminhos do Reino.

A chegada avassaladora de Francisco, suas palavras e atos têm fortalecido ainda mais nossa esperança nas CEBs e na Igreja da Libertação. Temos dado grandes passos no fortalecimento das CEBs. Muitas vezes fazemos uma caminhada com certa dificuldade em compreender os espaços e acabamos nos articulando de forma ainda tímida, mas ao longo dos últimos anos, estamos nos aproximado de novo, mostrando nosso desejo de construir juntos e juntas esses caminhos. E este ano é o momento propício. Sabemos que ainda há muito a ser feito, mas estamos no caminho certo! Em janeiro de 2014 teremos o 13º Intereclesial das CEBs[3], e terá uma plenária especial para dialogar a respeito da “Comunidade como lugar da Juventude”. Momento propício de jovens e adultos, mulheres e homens, refletirem o jeito de ser Igreja hoje, para acolher melhor a juventude que busca se engajar na construção do Reino, no seguimento a Jesus, sendo profetas e profetizas no campo e na cidade.

Ainda em janeiro, teremos nossa Ampliada Nacional da PJ[4], onde refletiremos nosso caminhar, nossa organização, o futuro de nosso serviço. Momento profundo de partilha e oração, de confirmar nosso seguimento ao Jovem de Nazaré e a nossa opção fundamental pela juventude empobrecida. No espírito das CEBs, celebrando e partilhando os 40 anos de caminhada, vamos girar o mundo, gritando aos quatro ventos o nosso jeito de ser Igreja Jovem, pois não podemos deixar de falar daquilo que vimos e ouvimos (cf. At 4, 20).

Que esta caminhada nos fortaleça sempre mais na fidelidade do seguimento a Jesus e na construção do Reino, sobretudo, pois é a partir daí que ‘cambiamos’ nossa realidade, no cuidado com aqueles que mais necessitam do nosso ser Igreja hoje.

Que nunca abandonemos o Evangelho! Que nunca abandonemos os pobres!

Fora dos pobres, não há salvação, nos provoca Jon Sobrino. E assim como Pedro me disse, sussurrando ao ouvido, eu lhes digo também, com toda certeza: fora dos pobres não somos Igreja!

Permaneçamos fieis à Testemunha Fiel!

Belo Horizonte/MG, 29 de outubro de 2013.

Thiesco Crisóstomo
Secretário Nacional da Pastoral da Juventude

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